sexta-feira, 24 de março de 2017

Nunca me esqueci de ti


E tu? Que palavras dirias a alguém, se soubesses que eram as últimas...?

segunda-feira, 6 de março de 2017

O Lume nos Dedos


Acende os dedos, um por um
Concebe a tua mão assim luminosa
para que os tendões sejam tocados
e a nudez se mova lentamente
através das pálpebras.

Acende os dedos e os ombros
e respira a força interna de um nome
para que a água estale nos lábios.
Acende o lugar e a sombra
e mergulha o rosto no segredo do espelho.

Acende os dedos, um por um,
esses afinal os degraus que conduzem
à morada dos astros e das raízes.


Vasco Gato, "O Lume nos Dedos" in IMO

quarta-feira, 1 de março de 2017

O outro lado do espelho


Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito.

Clarice Lispector

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Do voo


De que adianta ser pássaro se não se tira os olhos do chão?

Valter Hugo Mãe, in Contabilidade

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

(...)


São tão frios os dias em que a poesia não me encontra.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Palavras Roubadas


Você é livre para fazer as suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.

Pablo Neruda

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Cá dentro


Digo-te que tenho medo. Tu sorris e abraças-me com aquele abraço teu de nuvem azul onde me escondo toda, onde me guardas inteira. Perguntas-me pelo meu silêncio e eu hesito (entenderás tu?) antes de te responder. Depois atrevo-me e conto-te do mar do meu silêncio onde há criaturas medonhas e venenosas com tentáculos de polvo que sempre me agarram. Digo-te que sonhei com a mulher que foi levada pelo mar e não voltou... Digo-te que às vezes o mar é assim, guarda no ventre criaturas que toma como suas e não as devolve nunca mais. Também o meu silêncio é um mar roubador - explico-te. Também eu sou prisioneira de vagas de silêncio, dias e dias sem vozes dentro de mim, afogada, enrolada numa onda negra silenciosa. No meu sonho, a mulher que o mar não devolveu tem os olhos abertos de terror e um rosto quase igual ao meu. 
Tenho medo - repito. O teu abraço ainda não acabou mas eu tenho medo, mesmo assim. Fecho os olhos e por momentos sou menina de bibe outra vez, jogo à macaca no recreio da escola, as tranças quase desfeitas saltam e batem-me nos ombros como chicotes. Sou pequenina outra vez... - tenho nódoas negras nas pernas e um sorriso infinito na boca pegajosa do pão com marmelada que a mamã pôs na lancheira. Rio, rio muito e muito alto... Porque sei nadar em todos os mares e ainda nenhuma onda me levou ao fundo, aos abismos silenciosos nos confins do mar mais profundo. 
Conto-te tudo em voz baixa e o abraço desfaz-se. Desfaz-se a rede na nuvem que me guardava e de novo sou arrastada, outra vez regresso ao fundo do medo do meu silêncio, onde ninguém me agarra. E onde me afogo.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Nem sempre os pinheiros são verdes


Grata à Poética Edições pelo convite, é uma honra integrar esta coletânea ao lado de tão caros amigos!
O meu conto chama-se "MEL"... Porque nenhum Natal devia ser triste. Nenhum Natal devia ser amargo.
Venha daí conversar connosco, afinal, é quase, quase Natal...

domingo, 13 de novembro de 2016

Penas


Não queiras do voo
somente o coração aflito

Entende que é teu por direito
também
o turbilhão de penas
que o vento revolta.

Obrigada!

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

As vozes de Isaque


É o meu regresso à Poesia. Ou melhor, é a minha reconciliação com a Poesia.
É possível um mundo sem poemas e sem poetas? - Se está por perto, venha conversar connosco.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Tudo ou nada


E tantas vezes uma palavra, uma só, arruína um texto, o devassa com vulgaridade... 
Tantas vezes, numa frase que parecia perdida, uma palavra - uma só - é a salvação.
Hoje, com uma palavra - uma única palavra - encontrei sem querer a perfeição.
Ofereci-a aos meus alunos: a palavra luz.

domingo, 9 de outubro de 2016

Aquela hora certa aquele lugar


Era tudo tão simples quando te esperava

Ruy Belo in Muriel

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

(...)

Às vezes
perigosamente
as veias coagulam
Não percebem:
viver é uma hemorragia calculada.

Ana Hatherly, in Fibrilações

domingo, 28 de agosto de 2016

Sem filtro


Encontrei a Amélia por acaso, enquanto deambulava pela feira medieval da cidade. Ela estava sozinha, junto de uma banca de artesanato e parecia indecisa na escolha de uma coroa de flores. Reconheci-a pelos magníficos cabelos, pelo porte altivo, pela tatuagem no braço. Tantos anos depois, a inconfundível Amélia estava ali, na minha frente, na minha cidade.
Conhecemo-nos na faculdade, caloiras ambas, curiosas ambas, estrangeiras ambas numa cidade que nos acolhia a solidão. E já nessa altura a Amélia era diferente de todas as raparigas: lindíssima, tinha os cabelos longos, longos, um corpo elegante e musculado e movia-se silenciosamente, com passos felinos. Era super popular entre os rapazes e, a brincar, dizíamos que para arranjarmos namorado tínhamos que deixar a Amélia em casa, porque ela nos ofuscava sem piedade... Ela ria e desprezava todos os pretendentes: os mais suplicantes, os arrogantes, os tímidos, os galanteadores, os convencidos. Na verdade, a Amélia usava os homens. Saía com todos, dormia com alguns, beijava a maior parte, não se comprometia com nenhum. Dizia que nunca se apaixonaria. Que o amor era uma treta e que ela não ia em tretas. No primeiro encontro, punha as cartas na mesa e definia as regras do jogo, que todos aceitavam, talvez na esperança de a fazer mudar de ideias. Mas a Amélia nunca mudou.
A história dela é triste e conta-se em duas palavras: filha única, tinha o pai na cadeia por ter assassinado a mãe à pancada; amava de paixão os avós maternos que a tinham criado e a quem devia tudo; e a tatuagem no braço encobria queimaduras de cigarro feitas pelo pai quando ela era ainda menina. Tudo isto era contado sem voz embargada, sem lágrimas nos olhos, sem tremuras nas mãos, como se fosse a coisa mais natural deste mundo. E aquela Amélia aparentemente dura e insensível, merecia de todas nós um profundo respeito - porque ela era genuína, porque a Amélia não tinha filtros.
Fomos comer um gelado, perguntei-lhe pelo F. - Acreditas que ele me encontrou no facebook e mesmo com dois divórcios em cima, ainda não desistiu??!! Diz que quer casar comigo! - e havia tristeza nos olhos da Amélia enquanto recordava aquele amor louco do F., que o levava a fazer serenatas à sua janela, a deixar presentes debaixo da cadeira onde ela se sentava, a montar-lhe infinitas esperas e perseguições pelas ruas da cidade...
A Amélia continua sozinha, o ventre firme e liso denunciando a ausência de gravidezes, o anelar despido de qualquer aliança que a prenda a um amor de treta. Continua bela, genuína e sem filtros. Depois de nos termos despedido, fiquei a vê-la afastar-se, com o cabelo coroado de flores, o passo felino debaixo do vestido solto e quase vi de novo o F., de joelho no passeio, uma mão sobre o coração, cantando tristemente de olhos fechados: Anda comigo, Amélia vem / que eu sou sozinho / não tenho ninguém...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Da solidão


(...) a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.

José Saramago, in O Ano da Morte de Ricardo Reis

terça-feira, 26 de julho de 2016

Palavras Roubadas


- Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico, a felicidade por plástico e o próprio plástico, por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.

Afonso Cruz, in O Cultivo de Flores de Plástico

sábado, 16 de julho de 2016

Viva a vida...!


Um diplomata é alguém que se lembra sempre do aniversário de uma mulher, mas nunca da sua idade.
Robert Frost

(...52, sim senhor. E daí...???? Viva a vida!!!!)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O céu de julho


É mais azul, o céu de julho. É um céu mais sereno, com brandos aguaceiros que nos pousam nos ombros sem pedir casacos sobre a pele despida. Debaixo do céu de julho, sou sempre mais feliz, mais calma, mais calada... Debaixo do céu de julho, abro gavetas que só são escancaradas nesta altura do ano, e é em julho que visito sem medo o cemitério onde sepultei os sonhos perdidos, onde pousei os de asas cortadas... 
Em julho acredito que tudo é possível, porque um azul tão azul, não existe em vão...
Caminho debaixo do céu de julho, dentro de um vestido que não usava há quatro anos. O vestido continua a ser belo. É julho e eu continuo a sentir-me bela dentro do meu vestido que esvoaça à volta do meu corpo com asas de algodão macio. É um vestido azul - de um azul único -, como só o consegue ser o céu de julho. Dentro do meu vestido de nuvem, penso que por mais que me custe a acreditar, julho regressa. E quase sempre, ainda que tão estranho pareça, a vida resolve-se sozinha.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

20 anos de silêncio


A sedutora, quando envelhece,
é como a água parada de certos tanques:
sob o Sol ou sob a chuva, ainda orgulhosa
de ser água.

David Mourão-Ferreira, "LXV" in Jogo de Espelhos